Assuntos Fantasmagóricos de Mo Yan

Assuntos Fantasmagóricos de Mo Yan

Autor: Yang Xiaodong de Lanling

Durante toda a era da República, centenas de milhões de pessoas viviam em constante insegurança, sem ter o que comer, em extrema pobreza que se estendia por milhares de léguas, com lamentos por toda parte. Muitos se lançavam rumo ao Nordeste ou partiam para o sul do oceano em busca de sobrevivência, outros ainda rumavam para o oeste. Milhões de compatriotas foram lançados à deriva, obrigados a errar sem destino. Guerras, fome e pestes — essas são as minhas memórias daquele período: uma época marcada por incêndios e fumaça, em que catástrofes naturais e desastres provocados pelo homem fizeram surgir, um após o outro, monstros e espectros que antes pareciam extintos. Fenômenos estranhos e inquietantes multiplicaram-se, tornando-se incontáveis. Espíritos de cães selvagens, mortos-vivos imortais, sombras gigantes, raposas amarelas, espectros enforcados, demônios serpente e árvores encantadas, demônios e fantasmas de toda espécie, pequenos duendes, juízes do submundo, deuses das estradas negras e brancas — alguns assustavam e prejudicavam pessoas, outros buscavam vingança ou gratidão, outros se divertiam às custas dos vivos, outros ainda se aproximavam para evitar desgraças. Após tornar-me sacerdote laico, vivi muitos desses acontecimentos. Agora, que a noite está adiantada, deixem-me contar algumas dessas histórias de fantasmas que nem todos ousam mencionar.

Assuntos Fantasmagóricos de Mo Yan

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Capítulo Um: Sul de Shandong na Era Republicana

Meu nome é Yang Zhendong, mas todos me chamam de Ousado. Naquela época, acreditava-se, no interior, que nomes humildes traziam sorte; quanto mais simples o nome, mais próspera seria a vida. Foi assim que surgiram nomes como Burro, Ovos de Cão, Fezes e outros tantos. Nasci no sexto ano da República, em 1917, numa pequena aldeia nas montanhas do sul de Shandong.

Naquele tempo, havia muitas casas antigas no vilarejo. Minha geração foi marcada pela adversidade, tão amarga quanto o fel. Era uma época de guerras entre senhores feudais, onde a vida era descartável e as calamidades naturais e humanas ceifavam inúmeras existências. Por isso, nos cemitérios ao redor, era comum encontrar criaturas sobrenaturais: cães selvagens encantados, zumbis imortais, gigantes negros, raposas douradas, espíritos enforcados, cobras e árvores monstruosas, demônios, fantasmas menores, deuses de caminhos escuros e claros, entre outros. Alguns assustavam ou prejudicavam, outros buscavam vingança ou gratidão, uns pregavam peças, outros protegiam contra desgraças. Era um mundo repleto de estranhezas.

Essas coisas já não nos surpreendiam. Por exemplo, hoje em dia quase não se fala mais de paredes fantasmas, mas naquele tempo era algo corriqueiro. Essa manifestação tinha duas formas: a primeira eram os espíritos de animais brincando com as pessoas, fazendo-as andar em círculos, sempre retornando ao mesmo lugar. Não eram perigosos, apenas raposas, doninhas, coelhos ou salgueiros se divertindo. Para escapar, bastava rolar como um burro ou imitar seu relincho. Por isso, se alguém ouvia um burro

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